Categoria: Escritores Autônomos

Carta da Sociedade Arcaica Contemporânea.

Nihil

Para melhor compreensão, se faz necessário que você largue todo o conhecimento científico adquirido até os dias atuais e apregoe-se ao “achismo”. Enverede sua mente nos mesmos buracos negros que as pessoas que “acham” que orientação sexual é escolha. Feito isso, vamos supor que eles estejam certos. Faça esse esforço, apenas suponha.

Uma pessoa de sua convivência escolheu “virar” gay. Que trágico! Como alguém consegue deitar na cama e dormir tranquilamente sabendo que existe uma pessoa que fez essa escolha? Inadmissível! Todos nós sabemos que devemos fazer a escolha que a sociedade, que usa referências religiosas, quer. Sabemos que esses são os pilares corretos e esclarecedores que todo ser humano precisa.

Quando alguém tenta fugir disso, o mundo se perde um pouco mais. Que saudades do tempo em que a sociedade decidiu que negros não eram “gente” e sim uma raça inferior e que merecia ser escravizada. É bíblico e isso sim era inteligente.

 Que saudades dos tempos em que a sociedade decidiu que mulheres não tinham direito a nada. Nem a salários, nem ao voto, nem a nenhum tipo de voz. O povo de deus sempre soube apontar suas decisões políticas e sociais corretamente.

 Bendito eram os tempos em que a cúpula religiosa se reunia pra decidir se as mulheres carregavam ou não uma “alma” dentro de si. Que absurdo! Mulher com direito à espiritualidade? Não sei como os tempos evoluíram e tomaram esse rumo tão perdido.

 Como se não bastassem termos abdicado dessas causas que citei acima, a sociedade agora encara uma onda de pessoas que escolheram amar umas as outras, mas carregando o mesmo sexo. Uma incongruência!

Como pode, você, cidadão, filho de deus, olhar isso acontecer e simplesmente não fazer nada contra? A omissão é uma forma de compactuar com isso, sabia? Quer que aconteça o disparate que já aconteceu séculos atrás? Já perdemos nossos escravos, temos que trabalhar todos os dias e suar como condenados. Já demos direito ao voto para mulheres que elegem gente como o Jean Wyllys e já até tivemos que admitir sua espiritualidade e aceitá-las em nossos cultos religiosos. Onde isso tudo vai parar? Pelo amor de Deus, não deixem que quebrem mais paradigmas tão importantes e saudáveis para a nossa sociedade.

Não vamos deixar essa gente esclarecida atrapalhar nossa involução. Não vamos deixar que as pessoas escolham quem querem amar. Não vamos deixar que esse mal nos assole. Já ouvi falar que alguns lugares já estão até permitindo que pessoas do mesmo sexo se casem. Irmãos ativistas da burrice, por favor uni-vos. A igreja e a sociedade arcaica contemporânea precisam de você.

Obs.: Prezados, para que vocês fiquem mais tranquilos, tenho uma boa notícia. Ouvi falar, ainda não é certeza, só ouvi falar,  que se os homossexuais tiverem permissão de casar entre si, os héteros poderão continuar sendo héteros e vivendo suas vidas tranquilamente.

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Fantasma da Boemia Passada.

Um parco eco lúgubre, antigo e vil.
De efeitos cruéis ao emanar distante,
Invoca diabo predominante
De tal vergonhoso tempo pueril.

Definhando por desdouro infantil
Que desconforta a todo instante,
Faz lembrar fumaça dissipante
Que torna o jovem um mero senil.

Afasta daqui o desejo insano
Da confortável autodestruição
Sem sentido, que jamais lembrarão.

Relego-te ao passado, beberrão!
Leva embora o meio de vida profano
Que não inclua o futuro em seu plano!

@Rustedcreature

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Nada contra. (Aline Valek)

Não tenho nada contra homofóbicos. Eu, inclusive, tenho muitos amigos que são. O problema é que tem uns homofóbicos escandalosos, que não conseguem ser discretos. Ficam dando pinta que não gostam de gay, sabe? Tudo bem ser uma pessoa rancorosa e preconceituosa, mas não em público. Entre quatro paredes e bem longe de mim, tudo bem. Nada contra mesmo.

É impressionante o quanto eles se acham no direito de ficar com pouca vergonha na frente de todo mundo. Outro dia ouvi um cara dizer, em plena luz do dia e para quem quisesse ouvir, que “gay é abusado, mexe com homem na rua mais do que homem mexe com mulher”. Acredita? Mas já vi e ouvi coisas piores. “Tenho nojo de homem se pegando” ou “essas menininhas que se beijam não são bissexuais coisa nenhuma, só querem chamar atenção dos homens” ou ainda “te sento a vara, moleque baitola”, e por aí vai. E se alguém critica, logo apelam para “ah, foi só uma piada” ou “é a minha liberdade de expressão” ou ainda “está na Bíblia”. O horror, o horror.

Ser homofóbico é uma opção, mas ninguém tem a obrigação de aceitar, né. É muito constrangedor ver alguém olhando feio para duas pessoas do mesmo sexo se beijando. Como eu vou explicar para os meus filhos que existe gente intolerante? O pior é que nem na escola as crianças estão a salvo. Querem ensinar nossos filhos a serem homofóbicos, imagina! Quando você percebe, já é tarde demais: uma amiga minha foi chamada pela diretora porque o filho foi pego espancando um colega no intervalo. Tudo porque o rapaz era gay. Minha amiga, coitada, não aguentou a decepção de ter um filho homofóbico. Ela diz que é só uma fase, que vai passar. Por garantia, levou o menino no psicólogo.

Acredite, homofobia tem cura. Soube de uns casos de conversão que parecem até milagre. Em um dia, a pessoa estava lá, odiando gays, militando contra o direito dos homossexuais ao casamento civil, fazendo marcha pela família e tudo o mais. Mas com um pouquinho de empatia e bom senso, eles começaram a ver que não tinham nada que se meter com a sexualidade dos outros. E como o respeito é todo-poderoso e misericordioso, os ex-homofóbicos viram que os gays eram boas pessoas e também mereciam os mesmos direitos. Hoje dão testemunho de tolerância.

Agora, tão preocupante quanto homofóbicos exibidos e sem-vergonha são aqueles que não se assumem. Aqueles que não saem do armário, que se fazem de pessoas normais e sem ódio no coração, mas que, no fundo, no fundo, também são fiscais de cu alheio. Pensa comigo: você sai com uma pessoa dessas, sem saber da opção de ignorância dela, e começam a pensar que você também é homofóbico, igual a ela. E todos sabemos que homofóbicos são abominações, ninguém quer ser confundido com um deles. Além disso, onde enfiar a cara quando eles resolverem se revelar e soltarem um “odeio viado” assim, do nada?

Mas não me leve a mal. Não tenho nada contra os homofóbicos, apenas não concordo com a homofobia. Essa doença quase sempre vem acompanhada de outros preconceitos, como o machismo e o racismo. É um caminho sem volta. Fico triste de ver tantos jovens se perdendo nesse mundão de ódio gratuito. É por essas e outras que prefiro ter um filho gay a um filho homofóbico. Ah, você quer saber se eu vou aceitar e amar um filho que virar homofóbico? Como alguém já disse por aí, eles não vão correr esse risco; vão ser muito bem educados.

Fonte: http://www.alinevalek.com.br/blog/2012/05/nada-contra/

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Putas de São Luís.

São três de agosto, vou encontrá-la, se ela não desistir, no começo da noite. Meu plano é levá-la ao bar dos russos que me indicaram, mas não vou procurar ainda, espero que ela chegue e então procuramos juntos. Chego muito cedo, eu estou ansioso e especulativo, ela demora, mas finalmente me avisa que está no terminal de ônibus da Praia Grande, não me aguento de ansiedade e ando da Praça Nauro Machado, onde espero, até a frente do cinema. Ela surge do meio dos carros, com seus faróis verdes mirando meu destempero de longe.

Recebo minha musa com um abraço desengonçado. O Sol se põe e ela comenta contemplativa, voltada para a natureza óbvia e cíclica, não dou a mínima atenção para o astro indo “embora”. Andamos na direção do cais e voltamos para as ruas estreitas sob as quais os padres escoavam de uma igreja a outra “misteriosamente”. Sugiro que procuremos o bar dos russos, vamos então, mas como eu não costumo andar pela região, não encontro, muito menos ela. Voltando desta busca sem resultados ela aponta o mercado, simplesmente sigo seus passos e logo estamos no mercado das tulhas e ela solicitando uma cerveja para a dona do boteco.

Impelido pelos preservativos no bolso traseiro cedo e bebo com ela ou por ela. Conversamos sobre o que não consigo mais determinar. Mostro um livro que carrego na bolsa, é um Bukowski. Ela, desinteressada, saca um livro de sonetos de Pablo Neruda da sua respectiva mochila, eu com minha memória peculiar ressalto, com um conhecimento de causa nulo:

-Ganhou Nobel de literatura esse chileno aí!

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Ciência e religião de mãos dadas. (@rinaldo_vaz)

Esse artigo foi escrito por alguém que não é cientista, não está engajado em nenhuma pesquisa recente, mas por uma pessoa normal, em que sua única relação com a ciência é a admiração pelos seus métodos impessoais. Recentemente tomei conhecimento de experiências realizadas na Europa com neutrinos. O neutrino é uma partícula sub-atômica que tem dado o que falar na comunidade científica nos últimos dias já que testes realizados conseguiram registrar uma velocidade um pouco maior que a velocidade da luz. A pouco mais de um século atrás o génio da física Albert Einstein propôs em sua publicação “Ist die Trägheit eines Körpers von seinem Energieinhalt abhängig?” que E=mc^2. Trocando em miúdos, um corpo que contenha massa precisa de uma certa quantidade de energia para se manter em movimento, quanto maior for essa velocidade mais essa massa aumenta, consequentemente aumenta a quantidade de energia necessária para mante-lo nesse movimento. Essa fórmula conclui que pode-se atingir 90%, 95%, ou até mesmo 99,9999999999…% da velocidade da luz, mas nunca 100%, já que segundo essa teoria a partir da velocidade da luz esse corpo desenvolveria uma quantidade de massa INFINITA, demandando uma quantidade INFINITA de energia.

É claro que a teoria de Einstein não é tão simples, mas o importante a saber aqui é que ela mudou os rumos da física e revolucionou a ciência na época, deu uma larga contribuição ao entendimento humano, deu um fim e ao mesmo tempo novas direções à uma série de pesquisas da época. Houve uma grande resistência por parte da comunidade científica em aceitar esse novo conceito de variações no espaço-tempo, chegando ao ponto te um grupo de cientistas criarem um documento chamado “100 cientistas contra Einstein” onde cada um argumentava contra essa teoria. Ao ser questionado sobre esse documento Einstein respondeu: “-Se eu estivesse errado, bastaria UM”, e de fato, UM SÓ experimento com resultados contrários provaria isso, mas não houve nenhum. Agora no início do século 21 um experimento que fez um neutrino ultrapassar a velocidade da luz demonstrou que essa teoria pode estar parcialmente errada ou TOTALMENTE.

Se a velocidade do neutrino ultrapassa realmente a velocidade da luz não é nem de longe mais importante do que a sua abordagem, a comunidade científica recomendou que os testes fossem realizados novamente com cautela, já que um segundo resultado positivo poderia mudar totalmente o entendimento da ciência atual. Mesmo que a ciência com seus métodos sua seja fria, impessoal e desprovida de poesia, o seu método é digno de magnitude e beleza, trata-se de um protocolo incorruptível que não distingue raça, cor, nacionalidade nem nada, o resultado de qualquer experimento é e sempre será acolhido pela ciência, mesmo que isso custe mudar TODOS OS SEUS RUMOS E VERDADES ATUAIS.

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Construção. (@l0botomia)

Era de se esperar que ela se acostumasse com esse sentimento tão demasiado antigo. Mas para sua surpresa, ainda achava estranho sentir tanta falta dele mesmo que ele não sentisse a sua e tornava a se sentar sobre o parapeito da janela e a afundar-se em lembranças que cada vez mais se tornavam um sonho do qual ela jamais vivera. Ele por sua vez, iria se odiar para o resto de sua vida por ter quebrado o coração daquela inocente e jovem garota que um dia lhe jurara que jamais iria fazê-lo. Tornando sempre a pensar (entre um cigarro e outro) que fizera isso para protegê-la e não por deixar de amá-la. Percebendo finalmente que estava atrasado para seu encontro noturno, levantou, pegou um ou dois maços de cigarros e saiu noite a fora.

Ela, que pela primeira vez em horas, notou que seu gato estava ronronando em seu colo, deixou um sorriso se formar em seus lábios e tornou a enxugar lagrimas que começavam a se formar. Por fim, resolveu afastar aquelas lembranças na esperança de que um dia, elas deixassem de existir. Então soltou uma risada, esse pensamento, por mais estúpido que fosse pareceu lhe dar forças para então, continuar a existir.

No caminho para seu encontro, ele se lembrou dela ali, sentada no banco do passageiro, ao seu lado, sorrindo como se não houvesse tristeza no mundo que pudesse tirar aquele doce sorriso. Com esse pensamento ainda em mente, pensou que se talvez olhasse para o lado, ela estaria ali com ele, sorrindo do jeito que sempre sorria. Para seu desapontamento, o que se encontrava ali ao seu lado, era o eterno vazio.

Ainda pensando nela e como sentia sua falta, percebeu que ao terminar com ela, (uma coisa que nunca começou por ser muito orgulhoso) ele próprio quebrara a promessa de nunca quebrar o seu coração, e foi com esse pensamento que desceu do carro para o seu encontro. Como era de praxe, ele jogou todo seu charme para a jovem (ou não tão jovem assim, convenhamos) sentada a sua frente, disse uma sacanagem aqui e outra ali, usou e abusou de toda a sua sutiliza para fazer com que ela se sentisse atraída por ele e finalmente conseguiu levá-la pra um motel, nem tão barato nem tão caro, apenas o essencial para uma boa noite de sexo.

De certo modo ela estava esperando que isso fosse acontecer só que nunca pensou que fosse de fato acontecer, é como um filme que se repete várias e várias vezes dentro da sua cabeça. Tentando encontrar onde foi que errou o que foi que disse e o que foi que deixou de falar. Ficou pensando que talvez fosse algo que tivesse feito algo que deixou de fazer, a verdade foi que ela nunca descobriu como foi que aconteceu. Decidiu que o melhor era sair.  Mas para onde ir, quando tudo a lembrava dele? Quando se deu conta, estava dentro do metrô, esperando deixar de ser aquilo que era. Não queria mais aquela dor pra ela. Ela queria que alguém sentisse aquela dor que a queimava e ao mesmo tempo era fria. Ela queria alguém que tomasse a dor dela.

Ele se levantou, ela perguntou aonde ia. Não respondeu se fingiu de surdo, mas continuou a fitá-la, queria encontrar algo nela que o fizesse esquecer aquela que assombra seus sonhos e contagia seu dia. Mas não conseguiu, ela não tinha nada de mais, dois olhos, um nariz, uma boca. Igual as outras, igual a ela.

            “Será que ela ainda pensa em mim quando se deita? “
“ Será que ele ainda lembra-se do meu cheiro quando está com ela? ”

E com esses pensamentos, os dois seguiam em frente, com medo de esquecer aquilo que ainda procuram, com medo de encontrar aquilo que temem.

Sofia

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As Cinzas

Ele detestava o sol. Para ele aquilo não tinha serventia alguma. Trazia apenas calor e queimaduras a sua pele. Além do clarão que lhe dava dor nos olhos; uma dor parecida com a que lhe causavam as cores das flores nos jardins onde ele passava caminhando. Preferia a chuva. Menos quando ela batia na sua janela. E também não gostava quando pingos caiam na sua cabeça, nem quando formava poças de água que o faziam molhar os pés. Pensando bem, ele também não gostava da chuva. Na verdade preferia o tempo nublado. Sem sol, sem chuva. Apenas aquele tom cinza que preenchia de melancolia todo o mundo. Ele gostava disso. Bem, pelo menos até agora.

Aquela era uma manhã cinza, exatamente daquelas que o agradavam. Havia poucas pessoas na rua. Ele não gostava muito de pessoas. Preferia ficar em casa longe delas, mas seu médico o aconselhara a caminhar todos os dias. A idade já lhe alcançara. Sete décadas é tempo suficiente para você enjoar e cansar de tudo. No principio pensou em caminhar durante a madrugada, mas depois que o vizinho passou a querer acompanhá-lo no mesmo horário ele desistiu e resolveu caminhar exatamente na hora em que o vizinho estava no trabalho. Como não tinha escolha a não ser caminhar onde pessoas também caminhavam, ele, ao ver alguns jovens usando fones de ouvido enquanto iam para a escola, teve a mesma ideia e comprou os seus junto com um mp4 usado para ouvir a música que ele mais amava: a erudita. Na verdade ouvir música não era a única razão para ele usar os fones. Eles também serviam para não dar atenção para as pessoas na rua falando de suas vidas medíocres. Fazia sempre uma expressão de alienação para que as pessoas não o parassem para pedir informações. Noventa por cento das vezes dava certo.

O vento também o incomodava. Por isso se agasalhava bastante. Levava consigo sempre uma bolsa no caso de suar e tirar a blusa. Desistira de usar o chapéu panamá, pois uma ventania sempre o levava. Usava óculos escuros para impedir que poeira entrasse nos olhos e para não ser olhado nos olhos pelas pessoas. Era costume sair de casa todo agasalhado e voltar quase nu.

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A Saída da Caverna. (@hemersomn)

O primeiro passo que demos para fora da caverna desencadeou tudo o que conhecemos hoje. Deu origem a evolução de nossos atos, ao progresso de nossa raça. E tudo aquilo que era cinza de repente ficou colorido. O progresso. Unimo-nos com outros iguais a nós; amigos, companheiros, amantes. Organizamo-nos em grupos e aqueles que nasceram com o espírito de liderança nos encabeçaram, mas também haviam nascido aqueles com espírito de inveja dos líderes e assim veio prontamente uma luta de ideias e ideais. Houve cismas, discórdias, fofocas e desses grupos saíram outros grupos que também possuíam um líder, do qual outros invejaram e formaram mais grupos. A concorrência, a rivalidade, tudo o que nos dividia foi formando uniões. A história nunca deixa de mostrar um rastro de ironia.

O progresso veio com a necessidade. O entretenimento tomou o lugar da agonia, pelo menos enquanto estavam literalmente entretidos. As invenções surgiram para facilitar a vida e trazer mais conforto, ao passo que também trazia outras dificuldades, pelo menos para alguns, pois nem todos são privilegiados todo o tempo. A necessidade de comunicação, de companhia, de ganhos e não perdas, nos moldaram aos poucos e o que antes era apenas grunhidos tornaram-se palavras que alegravam, incentivavam e também machucavam. Tudo se adaptava ao progresso e mais rápido as primeiras invenções se tornavam obsoletas, assim como seus inventores. Assim como o último dente ao nascer nos arranca dores as mudanças que surgiam pareciam nos rasgar a pela e revelar nossos brancos ossos.

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Da vaidade que atormenta o mundo.

Quem é o homem senão o mais pavão de todos os pavões? Aquele que ergue suas plumas adornadas, aquele que as deixam cada vez mais cintilantes, aquele que faz estardalhaços para que se voltem atenções à sua cauda.

E que não haja distinções! Que todos os olhos derramem suas lágrimas em tamanho esplendor. Que todos os porcos tenham suas vistas seduzidas pelo encantar do pavão. Que até os insetos, os mais asquerosos dentre os insetos, estremeçam de inveja ante o Homem-Pavão! Que os cegos tenham tato, para que possam tatear e vislumbrar também toda a sua beleza. E que o anseio pelo pavão seja a plenitude imbuída em todos os seres, o arrependimento de todas as consciências e o desesperar de toda serenidade, por não serem o tal pavão.

Nunca fui perdoado pelo pavão. Nunca serei. Sempre me odiou e assim será por toda sua existência! Por quê? Porque não invejei suas virtudes, por não amar sua pompa e por não deitar meus olhos séqüitos em sua majestade. É o que fazem todos os ataviados: odiar os que lhes são indiferentes! E apequenados em suas frívolas virtudes hão de perecer, em tentativas e mais tentativas, para que lhe enxerguem também o Poeta.

Mas minhas pálpebras cerram-se sobre minhas íris e ouço o chacoalhar distante de mil plumas insaciadas. Mas meus olhos, diletantes olhos, atrofiam-se diante de mil sóis, lacrimejam diante de mil oceanos, clamam diante de mil vácuos: mas me enfada assentá-los no orgulho miserável de um pavão!

Nihil

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O Verdugo.

Um dia sem nuvens: céu aberto por onde o sol se aproxima. Na praça central, uma multidão se empurra procurando melhores lugares. Há muitos espectadores e apenas dois personagens: meu verdugo e eu. Em minha cela, próxima à praça, faço minha última refeição. A multidão grita, alimentada pela navalha brilhante da guilhotina. Serei o primeiro de muitos a serem executados nesta manhã. Tive que acordar cedo, tomar um café fraco, arrumar meus pertences para serem entregues à minha família. No momento, apenas eu, uma vela, uma folha de papel, uma pena, um tinteiro e minha sombra. Nada mais. Se existissem janelas eu poderia observar as pessoas levantando as mãos em euforia.

Falta pouco. Desde minha condenação fico a esperar o momento próximo. Um calor sufoca-me. Uma falta de ar me é agora a companhia que eu não queria. Visto calças e camisa de tecido vagabundo e uso uma sandália de couro cru para completar as vestes que uso – eu e qualquer condenado neste país. Por falar em condenação, meu crime foi como qualquer outro. Uma ação fora das regras que eu mesmo desconhecia. Mas de qualquer forma fui julgado, xingado, vaiado, condenado. Agora tomo meu lugar.

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