Categoria: Escritores Renomados

O Crédulo. (Mencken)

A fé pode ser definida em resumo como uma crença ilógica na ocorrência do improvável. Ela contém um sabor patológico; extrapola o processo intelectual normal e atravessa o viscoso domínio da metafísica transcendental. O homem de fé é aquele que simplesmente perdeu (ou nunca teve) a capacidade para um pensamento claro e realista. Não que ele seja uma mula; é, na realidade, um doente. Pior ainda, é incurável, porque o desapontamento, sendo essencialmente um fenômeno subjetiva. Sua fé se apodera da virulência de uma infecção crônica. O que ele diz, em suma, é: “Vamos confiar em Deus, Aquele que sempre nos tapeou no passado”.

Mencken – O Livro dos Insultos

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A vida do homem. (Mencken)

A velha noção antropomórfica de que a vida de todo o universo se centraliza no homem – de que a existência humana é a suprema expressão do processo cósmico – parece galopar alegremente para o balaio das ilusões perdidas. O fato é que a vida do homem, quanto mais estudada à luz da biologia geral, parece cada vez mais vazia de significado. O que, no passado, deu a impressão de ser a principal preocupação e obra-prima dos deuses, a espécie humana começa agora a apresentar o aspecto de um subproduto acidental das maquinações vastas, inescrutáveis e provavelmente sem sentido desses mesmos deuses.

Um ferreiro fabricando uma ferradura produz também algo quase tão brilhante e misterioso – uma chuva de faísca. Mas seus olhos e pensamentos, como sabemos, não estão nas faíscas, e sim na ferradura. As faíscas, na verdade, constituem uma espécie de doença da ferradura; sua existência depende de um desperdício de seus tecidos. Da mesma maneira, talvez o homem seja uma doença localizada do cosmos – uma espécie de eczema ou uretrite pestífera. Existem, é claro, diferentes graus de eczemas, assim como há diferentes graus de homens. Sem dúvida, um cosmos afligido por uma infecção de Beethovens jamais precisaria de um médico. Mas um cosmos infestado por socialistas, escoceses ou corretores da Bolsa deve sofrer como o diabo. Não é surpresa que o sol seja tão quente e a lua tão diabeticamente verde.

H.L. Mencken (O Livro dos Insultos)

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A luta entre O Anjo e O Demônio pela alma Do Perdedor. (William Bouguereau)

Os olhos Do Perdedor, pela primeira vez, conhecem suas lagrimas. O Anjo, então, em seu ouvido sussurra:

- Se o mundo que te veste, não lhe é o suficiente, e tudo o que lhe vem à mente é àquela louca vontade de fugir, não se preocupe, eu irei com você… Eu irei a qualquer lugar com você. Apenas, ata-me em tuas correntes, e me leve com você. Porém, se você fraquejar, e partir sozinho, não pense que eu lhe entenderei.

O Anjo implora:
- Fique comigo, fique comigo.

E entre lagrimas de sangue, O Anjo continua a dizer:
- No silêncio de teu quarto, na escuridão de teus sonhos, tenho certeza de que você só pensa em mim. Não há meio termo. Não há metade do caminho. Nunca houve e nunca haverá. E quando finalmente teu orgulho, por terra estiver caído, eu farei você implorar por mais, muito mais.

Do outro lado, sarcástico, O Demônio olha nos olhos Do Perdedor e, exalando sua cólera, desafia:
- Melhor você orar e ter esperança de que você terá segurança quando estiver de volta ao seu próprio mundo. Melhor você orar e ter esperança de que um dia, você acordará em seu próprio mundo. Porque quando a noite cai, ninguém escuta tuas lagrimas. Ninguém do teu mundo escuta tuas lagrimas. O tempo, poderá, talvez, ser capaz de lhe mostra o caminho. Mas você vera o caminho apenas se você conseguir quebrar as barreiras que separam você do seu mundo, se lá, um dia estiveres de volta.

O Demônio, com suas ásperas mãos, enxuga então, as lagrimas Do Perdedor, e com uma voz serena diz:
- Fique comigo, fique comigo.

O Perdedor, já não mais sentia o pulsar de teu próprio coração. Ele já estava morto, como sempre esteve. O Perdedor não mais chora, ele agora, segura as mãos Do Demônio beijando-lhe a face. E sem mais o que perder, nem mesmo a sua dignidade, escolhe por fim, viver por toda eternidade no inferno… No inferno de sua própria consciência.

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Poema em linha reta.

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

(Álvaro de Campos – Fernando Pessoa)

P.S.: Para ver um vídeo do Paulo Autran interpretando o poema acima:

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Versos Íntimos.

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão – esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

(Augusto dos Anjos)

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Café da manhã.


Ele colocou o café
No copo
Pôs o leite
No copo de café
Ele colocou o açúcar
No café com leite
Com a colher
Ele virou-se
Bebeu o café com leite
E repousou o copo
Sem falar-me.

Acendeu um cigarro
Fez círculos
Com a fumaça
Ele colocou as cinzas
No cinzeiro
Sem falar-me
Sem olhar-me

Levantou-se
Pôs seu chapéu na cabeça
Ele colocou sua capa de chuva
Porque estava chovendo
E partiu
Na chuva
Sem dizer uma palavra
Sem olhar-me

Tomei
Minha cabeça entre as mãos
E chorei

(Déjeuner du matin –  Jacques Prévert)

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COMO TUDO É DISTANTE! (Cioran)

Não faço a mínima ideia de por que devemos fazer algo neste mundo, de por que devemos ter amigos e aspirações, esperanças e sonhos. Não seria mil vezes mais preferível um recolhimento num canto, longe de tudo, aonde não cheguem os ecos daquilo que constitui o ruído e as complicações deste mundo? Desistiríamos então da cultura e das ambições, perderíamos tudo sem nada ganhar em troca. Mas ganhar o que neste mundo? Há gente que não dá importância alguma a qualquer tipo de ganho, irremediavelmente infeliz e sozinha que é. Somos todos tão fechados uns aos outros! E se fôssemos abertos de tal modo a recebermos tudo uns dos outros ou a decifrarmos uns as almas dos outros nos mais profundos detalhes – quanto seríamos capazes de iluminar o seu destino?

Sozinhos na vida, perguntamo-nos se a solidão da agonia não seria o próprio símbolo da existência humana. É um sinal de grande fraqueza querer viver e morrer em sociedade. Ainda pode haver consolo nos momentos derradeiros? É mil vezes mais preferível morrer em algum lugar sozinho e abandonado, sem pose e fingimento. Enauseiam-me as pessoas que se controlam durante a agonia, forçando uma determinada atitude só para impressionar. É na solidão que as lágrimas são ardentes. Todos aqueles que se fazem rodear por amigos na hora da morte têm de fato medo da incapacidade de suportar os instantes finais. Tentam esquecer-se de si próprios no momento capital da morte. Por que não se imbuem de um infinito heroísmo, por que não trancam a porta para suportar aquelas sensações insanas com uma lucidez e um temor ilimitados?

Somos todos tão isolados de tudo! Mas não é inacessível tudo o que há? A morte mais profunda e mais orgânica é a morte por solidão, quando a própria luz se torna um princípio de morte. Em tais momentos, separamo-nos da vida, do amor, dos sorrisos, dos amigos e até mesmo da morte. E nos perguntamos, paradoxalmente, se existe mais alguma coisa além do Nada do mundo – e do nosso próprio Nada.

Cioran

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Mme Du Deffand

Dizei-me por que, detestando a vida, eu receio a morte? Nada me indica que tudo não se acabará comigo; ao contrário, me dou conta do desmoronamento de meu espírito, bem como do de meu corpo. Tudo o que se diz pró ou contra não me causa impressão alguma. Só escuto a mim mesma, e só encontro dúvida e escuridão. Crer, dizem, é o mais seguro; mas como crer no que não se compreende? O que não se compreende pode existir, sem dúvida; também não o nego; sou como um surdo e cego de nascença; há sons, cores, isso ele admite, mas sabe ele o que é que está admitindo? Se basta não negar, ainda bem; mas isso não basta. Como se pode decidir entre um começo e uma eternidade, entre o cheio e o vazio? Nenhum dos meus sentidos me pode ensiná-lo; que se pode aprender sem eles?

Entretanto, se não creio no que é preciso crer, sou ameaçada de ser mil vezes mais infeliz depois de minha morte do que o sou durante a minha vida. A que se determinar, se é possível se determinar? Peço-vos, a vós que tendes um caráter tão verdadeiro, assumir o compromisso de, por simpatia, encontrar a verdade, se ela é encontrável. É das coisas do outro mundo que é preciso me informar, e me dizer se estamos destinados a desempenhar nele um papel.

A mim me cabe falar-vos deste mundo de cá. Em primeiro lugar digo-vos que ele é detestável, abominável, etcétera. Há pessoas virtuosas, ao menos que podem parecê-lo, enquanto não atacamos sua paixão dominante, que é de ordinário, naquelas pessoas, o amor da glória e da reputação. Embriagadas com elogios, muitas vezes parecem modestas; mas os cuidados que tomam para consegui-los denunciam o motivo e deixam entrever a vaidade e o orgulho. Eis o retrato da maioria das pessoas de bem. Nas outras são o interesse, a inveja, o ciúme, a maldade, a perfídia. Não há uma só pessoa a quem se possa confiar as aflições sem lhe proporcionar uma alegria maligna e sem se aviltar a seus olhos.

Falar de prazeres e êxitos? Isso faz nascer o ódio. Praticais o bem? O reconhecimento pesa, e encontram-se razões para se eximir dele. Cometeis algumas faltas? Elas jamais se apagam; nada pode repará-las. Vedes pessoas inteligentes? Só estão ocupadas com elas mesmas; desejam ofuscar-vos e não se darão ao trabalho de vos instruir. Tendes negócio com espíritos mesquinhos? Eles estão atrapalhados com o próprio papel, manifestarão descontentamento com sua esterilidade e sua pouca inteligência. Na falta de espírito encontram-se sentimentos? Alguns, nem sinceros, nem constantes. A amizade é uma quimera; só reconhecem o amor; e que amor! Mas basta, não quero levar mais longe minhas reflexões: elas são o produto da insônia; reconheço que um sonho seria preferível.

 

Madame Du Deffand

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O Eterno Retorno

E se um dia ou uma noite um demônio se esgueirasse em tua mais solitária solidão e te dissesse: “Esta vida, assim como tu a vives agora e como a viveste, terás de vivê-la ainda uma vez e ainda inúmeras vezes; e não haverá nela nada de novo, cada dor e cada prazer e cada pensamento e suspiro e tudo o que há de indizivelmente pequeno e de grande em tua vida há de retornar, e tudo na mesma ordem e sequência – e do mesmo modo esta aranha e este luar entre as árvores, e do mesmo modo este instante e eu próprio. A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!”

Não te lançarias ao chão e rangerias os dentes e amaldiçoarias o demônio que te falasse assim? Ou viveste alguma vez um instante descomunal, em que responderias: “Tu és um deus, e nunca ouvi nada mais divino!”? Se esse pensamento adquirisse poder sobre ti, assim como tu és, ele te transformaria e talvez te triturasse; a pergunta, diante de tudo e de cada coisa:

“Quero isto ainda uma vez e ainda inúmeras vezes?”

Pesaria como o mais pesado dos pesos sobre teu agir! Ou então, como terias de ficar de bem contigo mesmo e com a vida, para não desejar nada mais do que essa última, eterna confirmação e chancela?

 

Friedrich Nietzsche

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Elogio da Dialética – Bertold Brecht (via @JCaroliiine)

A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã

(Jéssica Caroline - Estudante de História da FFLCH/USP)
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