Categoria: Post Scriptum

Das normalidades da vida.

Nihil

Era só mais um final de tarde medíocre. Sem nada a ser destacado, salvo a normalidade e o tédio rotineiro. E Agemiro acabara de acordar do seu sono da preguiça. Abriu a geladeira, procurou algo pra comer e não encontrou muitas opções que o agradassem. Pegou uma cebola, picou em pedaços assimétricos e resmungou quando foi jogar na frigideira e percebeu que não tinha mais manteiga em casa. Agemiro não teve dúvidas, jogou um azeite português para dar continuidade ao seu prato ruim.

Depois de comer aquele omelete sem gosto, despiu-se e partiu pro banho. Não sem fazer o seu ritual de autoverificação no espelho. Observou que sua pele já não era a mesma, que seus olhos já não brilhavam tanto e que seu pau já nem era tão vigoroso assim. “Maldita idade. Me deixa em paz!” exclamou sem muita esperança. Sentou-se à privada e começou a folhear uma revista feminina que havia encontrado atrás da porta. Abriu e prometeu a si mesmo: “Vou ler até final. Preciso me inteirar mais sobre o que as mulheres andam querendo”. Agemiro se decepcionou mais uma vez. – Pobre Agemiro, sua vida era cheia de pequenas decepções. – A revista insistia em falar sobre relacionamentos da forma mais genérica possível. Dizia também que as mulheres eram fissuradas em cabelos, quais as cores de esmalte estavam em alta e dava dicas de moda para aquele verão. Em outra parte, citava formas de agradar um homem à cama. Agemiro riu quando leu revista dizendo que eles gostam de boquete longo e lambuzado. E que gostar do esperma do marido poderia fazer bem à relação.

Agemiro era um homem formado em administração, já vivera mais de 38 anos e se considerava extremamente experiente em todos os assuntos que concerniam-se a relacionamentos. Aliás, ele poderia ser um daqueles colunistas e dar dicas muito melhores que aquelas. Os casamentos das mulheres que liam aquele tipo de revista seriam muito mais felizes com as opiniões de Agemiro, tinha certeza. Então ele concluiu: “Como são burras as mulheres. O que seriam delas sem nós, hein, Deus?”. Deu um riso de canto de boca, olhou pro relógio e se apressou no banho. Afinal, tinha que buscar as crianças na escola e preparar a janta. Rosa ficava furiosa quando chegava exausta do trabalho e o Agemiro ainda não tinha feito suas obrigações domésticas. Odiaria ter mais uma vez sua mesada cortada pela esposa advogada.

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Vírgulas.

Fernando Henrique - @virgulapeniana

Eu estava voltando para casa, normalmente, vindo da escola de inglês. Um carro acelerou vindo de trás de mim, passou por mim, me fechou na calçada e eu paralisei. De lá desceram dois sujeitos encapuzados, me pegaram pelos braços, me esbofetearam, escangotaram e prenderam dentro do porta-malas do Fiat. Comecei a suar ao entrar e suei por todos os poros até o destino. O carro estava indo muito rápido, bati a cabeça, o joelho, os cotovelos… Chegamos ao sítio, fui arrancado do porta-malas, praticamente, sem água no corpo, amarelo ou verde, com toda certeza. Ao me tirarem da clausura calorenta minhas vistas escureceram, a pressão havia baixado… desmaiei.

Acordei com o rosto no cimento molhado de um quarto escuro que só seria iluminado no dia seguinte pelas frestas na parede. No dia seguinte me acordaram jogando água no meu rosto, foi como se eu estivesse me afogando, despertei assustado, me escorei na parede dura, esbugalhando os olhos para tentar ver quem eram, de nada adiantou, estavam com máscaras de monstro. Um deles falou:

-O número de telefone do seu pai, qual é?

Perguntei em resposta:

-O que vocês querem com ele?

Ele chutou minhas costelas, uma vez só, foi o suficiente para que eu chiasse de dor, tinha uma estrutura de aço na ponta da bota, com certeza um ferracine… Informei o número, com ddd e tudo mais. Só os vi novamente no dia seguinte, quando me acordaram com um chute na coxa, novamente a bota ferracine. Não sei se ligaram para meu pai, mas nesse dia começou a sessão de retalhação do meu corpo. Um deles me levantou e imobilizou, o outro, então, veio com uma tesoura de podar bonsai e cortou a ponta do meu dedo mindinho da mão esquerda, chorei pela perda antes de gritar de dor.

Depois de perder a noção de tempo eu já estava entrando em colapso, certo dia gritei desesperado. Uma voz veio do outro lado da parede solidária, uma voz jovem, feminina, firme e suave, ela perguntou meu nome, disse a ela e depois ela me disse o seu. Disse que lhe rasparam os cabelos e que agrediram-na, que estava estropiada e em farrapos, também falou que ia matar os desgraçados que fizeram aquilo com ela. Conversávamos sempre, todos os dias na mesma hora. Quando já estava me sentindo um detento que se alimenta de pão e água e mais nada, eu, novamente, fui mutilado, cortaram minha orelha e eu pude ver que enveloparam-na antes de deixarem que eu sangrasse naquele chão frio de concreto. Na mesma noite ouvi que a minha vizinha foi também cortada, arrancaram um dente dela, um dente da frente: “um dente que fica do lado esquerdo do canino”, disse ela.

Eles continuaram mutilando meu corpo, perdi quatro dedos, diversas unhas, uma orelha… Ela foi estuprada, espancada, cortada… Estivemos juntos até quando o homem de botas ferracine nos levou para fora do cativeiro, estávamos encapuzados, ela e eu, não conseguia ver nada, eles atiraram no coração dela, sei por ter sentido o sangue jorrar sobre minhas roupas, ela estava à minha frente. Antes que pudessem fazer o mesmo comigo eles caíram ao meu lado, mortos, fui resgatado, voltei para minha vida e perdi 2 meses de aulas na escola de inglês: FUCK!

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Comfortably Numb.

Doktor Slaughter

A consulta estava marcada para as três e meia, mas cheguei uma hora antes. Talvez eu estivesse ansioso, ou nervoso pelo fato de nunca ter ido àquele consultório, ou esse foi apenas mais um episódio da minha pontualidade compulsiva. Ou talvez tudo isso junto, mas eu já estava ali. É claro que havia a possibilidade de desistir, mas levantar e sair correndo só atestaria o fato de que eu era mesmo louco. Sim, eu estava no consultório de um “médico de doido”. Foi assim que sempre vi os psiquiatras, desde pequeno. Acho que todo mundo os vê assim até hoje, inclusive eu, um louco hipócrita.

Mas isso não importa. Eu ainda tinha uma hora pela frente, e muitas opções de distração. Comecei a analisar o cenário: um consultório pequeno, no vigésimo e último andar de um prédio. A sala de espera era aconchegante, mas me incomodava um pouco. Acredito que a decoração em tom de azul pastel era proposital. Essas tonalidades sem graça devem desencadear algum efeito de retardamento ou algo do tipo. Havia a mesa da secretária – que por sinal era uma moça bonitinha, mas tinha cara de retardada pra combinar com a decoração do consultório -, duas cadeiras em frente a ela, uma poltrona e um sofá de dois lugares. Tudo na mesma tonalidade morta de azul. Nos primeiros quinze minutos, havia apenas eu e a secretária babaca na sala de espera. Durante esse período, um silêncio quase sepulcral imperou naquela salinha minúscula, e eu estava sendo tentado pela vontade de levantar e sair correndo. Mas me controlei, mesmo com as mãos suando e um grande incômodo na garganta que me fez pigarrear umas três vezes. Antes que eu o fizesse pela quarta vez, outra paciente chegou.

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Dois mil e treze.

Haroldo César

Todo ano novo é a mesma coisa. O garoto assiste as queimas de fogos, abraça a família e amigos, deseja um bom ano a todos os próximos. Mas esse ano ele esta se sentindo vazio, seco, incompleto. Estava ansioso, nervoso, e chateado ao mesmo tempo. Ele olhava para tudo que estava acontecendo em sua vida, se sentia desesperado, e ao mesmo tempo aliviado. Foi um ano horrível para ele, que tinha perdido coisas muito valiosas dentre elas sua autoestima, Ele se viu lesado esse ano, destruído por um problema em sua vida que o tirou de várias jogadas, Todos os problemas em sua vida foram juntos, ele provou ser forte, intenso e batalhador. No fim do ano ele se sentiu um vitorioso, um guerreiro, quase um campeão. Olhou a tudo que tinha a sua volta, todo bem que estava lhe acontecendo, tudo consequência dos problemas que ele enfrentou, desde o mais simples sorriso, até o mais valioso amigo. Toda sua vida foi transformada. Mas ele precisou perder muito para isso.

E você, perdeu muito para aprender no ano que passou?

Vamos tentar ter um ano sem perdas, mas com um aprendizado maior. Aprender por erros, aprender que mesmo fazendo as coisas certas, podemos melhorar, nunca devemos parar de tentar, e parar de tentar ser bom no que fazemos. Aprender com uma arvore a ter paciência e esperar pela chuva, e a ajudar outras criaturas a viverem. Aprendermos a amar com animais domésticos, que fica feliz quando alguém querido chega, quer dar e ter atenção, aprender a cochilar e a descansar. Aprender com o sol, que cada lugar, cada intensidade tem um horário certo para acontecer. Aprender conosco mesmo, que nunca somos grandes demais para nós mesmos, e nunca pequenos demais para onde podemos ir e chegar.

A todos os leitores do Post Scriptum e do Nihil Fuck um ano excelente.

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Guerra.

Haroldo César

O jovem garoto se levanta vagaroso, esfregando os olhos e lembra-se do que terá para fazer hoje.  Se arruma, coloca seu coturno, uma camiseta e uma calça dos velhos tempos.  Se olha no espelho.  A última vez que usou aquela roupa, ela ficava larga. Agora ele estava com o corpo mais forte, suas roupas encaixavam até um pouco apertadas. Ele suspirou, olhou para sua barba. Por alguns instantes pensou, aquela poderia ser a última vez que ele via seu próprio rosto no espelho.

Desceu pelo elevador. Quando estava descendo, ouviu o barulho de metal rolando e os berros do povo. Aquilo era algo único acontecendo. Quando ele chegou ao hall do prédio, ele viu uma multidão passando na porta. Se apressou para juntar com aquela multidão. Nada de faixas, nada de pedradas, só o povo gritando. O barulho do metal era de canos que pessoal que estava na primeira fileira carregava nas mãos.  Eles debatiam os canos, paus, pausadamente.  Em pouco tempo, estavam se juntando a mais um grupo gigante de pessoas, numa das principais avenidas de sua cidade, em frente à prefeitura municipal.

- De acordo com o que diz na internet, isso está acontecendo em todas as cidades. – disse o homem que estava ao seu lado.

Cercando aquela multidão, estavam os escudos reluzentes da polícia preocupada com o que aconteceria se as pessoas perdessem o controle. Na frente da prefeitura, muito mais policiais, esses com armas de efeito moral, todos se mostrando bem tensos. Pouco tempo depois, dois carros fortes escoltando um caminhão de som apareceram. Em cima do caminhão de som, um jovem de seus 19 ou 20 anos falando com força e ânimo:

- Força militar, vocês são cidadãos como nós, vamos parar de aceitar que somos impostos. Somos fortes, mas somos fortes se agirmos como um. Nesse prédio se escondem pessoas as quais impõem e cobram de nós todo imposto que deveria voltar para nós, como salário para polícia, ou educação, e não engordar alguns homens que estão ficando cada vez mais ricos.

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Por que você não… ?

Rodolfo Focchi - @rfocchi

por que você
não simplesmente
sai por aquela porta
e leva suas coisas?

leva esses olhos
da minha frente
esse embriagado
fundo
olhar esmeralda

droga, por onde eu olho
estão seus olhos
já nem posso mais
ver mulher usando verde
que me lembro do seu vestido
verde
combinado aos olhos
verdes

joguei fora a blusa
que você esqueceu
guardei o livro
com seu nome na contracapa
mas quase sempre passo
pela estação de metrô
pra ver a gente sentado
brigando

o assento lá
ausente de mim
(e o que não está, a essa altura?)
cheio de você nele
(e o que não está, a essa altura?)
e por todos os cantos
da barra funda
a olhar verde esmeralda
para os lados

não tem jeito
não adianta
você levar embora…
levar o que mais?
me diz
o que é que você
ainda não levou?

verdade
não tem nada aqui…
só eu procurando
coisas que não tenho mais

eu não tenho mais
a cor verde pra mim
meu livro preferido
a estação de metrô
pra mim
meu peito
só saudade
pra mim

faz diferente
fica ai você
com tudo que
não é mais meu
enquanto eu
saio por aquela porta
sem levar nada

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Um cigarro na janela.

Stela Nesrine – @rstelar

Esta noite a realidade se fez um grande precipício à minha volta, do qual não posso fugir.
Fiz a besteira de ir fumar na janela. Sentada na janela, no meu apartamento, no oitavo andar de um prédio no centro de São Paulo. Quando dei por mim, tudo que sobrou foi um nó na garganta, um aperto no peito, câimbra nos pés, músculos contraídos, suor, batimento cardíaco acelerado, pernas bambas e mãos geladas. Norma Lúcia, a amiga que eu sempre quis ter, e a mulher que eu sempre quis ser e que na verdade não existe, sussurrou no meu ouvido: “Medo da morte. Que piada, logo a gente.”Logo nós que sempre praguejamos contra este lugar e essas pessoas, que sempre vivemos sem um porquê, e que nos odiávamos mais a cada novo dia de existência sem motivo. Achando tudo cada dia mais idiota e repetitivo. Assistindo pessoas ocupando suas mentes e seu tempo em apenas mudar a forma de dizer o que já foi dito, e bem mais de uma vez.

Retirar os parênteses de alguém ali, mudar uma vírgula aqui, uma entonação diferente e assim nasce um filósofo, um escritor, um ativista, uma feminista, um bipolar, uma viciada em tequila, um niilista e tantas outras auto intitulações que estamos cansados de ver e ouvir. A cópia da cópia da cópia da cópia. Existindo. Resistindo. Levantando. Lutando. Encarando. Morrendo. Nascendo. Cavando a própria cova dia após dia. Caminhando a passos largos de encontro ao precipício, seguindo a plaquinha escrita “Liberdade”. Sendo uma cópia mal feita dos defeitos dos antepassados. Um xérox borrado dos planos que se põe no papel todo dia 31 de dezembro. Um projeto de vida todinho pra chamarmos de nosso.

Precisamos correr disso, você sabe. Você sabe que por trás de cada angústia, de cada perda, de cada desilusão, existe algo que simplesmente anseia por vida, no sentido mais puro e simples da palavra – se é que existe -. A cada centímetro de movimento, afundamo-nos em uma areia movediça de mesquinharia e individualidade. Nós sabemos onde a liberdade está, e não é aqui. Mas continuamos, ad infinitum. Tentando encontrar algo único numa multidão de siameses. Acreditando ser a tal agulha no palheiro. Servindo de fantoches dos deuses que nós mesmos criamos. Dia após dia. Ano após ano. Geração após geração.

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Milho aos pombos.

Fernando Henrique - @virgulapeniana

Um homem está sentado. Ele lê um livro, compenetrado. Está com as pernas cruzadas, o cotovelo apoiado sobre o joelho. Ele lê a última página de um livro com capa preta, páginas frágeis e bordas vermelhas. Ele acaba a leitura da última palavra, respira fundo, libera o ar, fecha o livro, saboreando o orgasmo da conclusão e apreensão daquela peça completa. Fecha o livro com quatro dedos na capa e o polegar na contracapa. Ao fechar, a pressão feita pelos dedos causa um barulho de choque, o cheiro das folhas é espremido para as narinas que já aguardavam o perfume. Ele usa a mão livre para puxar o zíper em volta do livro, fecha face por face, aproveita o som. Descruza as pernas, levanta-se, olha para o livro e o arremessa do terceiro andar.

Anda pelo corredor, constante, desce as escadas, sem charme, só com o objetivo delimitado, chegar ao térreo. Entra pela lanchonete, levanta a mão e sinaliza pedindo um café pequeno, saca do bolso pequeno do jeans uma moeda de 25 centavos, coloca no balcão, empurra com o indicador em direção ao atendente. Afoito, pega o copo minúsculo, sente os dedos se retraírem pela queimadura, passa a alternar a forma como segura, ora com o polegar e ao indicador, ora dedo médio e polegar, ora sobre a palma da mão, sem saber o que fazer para abrandar a dor ele bebe metade do conteúdo. A língua imediatamente é queimada, o céu da boca idem, ele expressa, no rosto, a dor, o incômodo causado pelo café que agora desce traqueia abaixo agindo como um vulcão ao contrário.

Ele se enche de coragem, e bebe o restante, o processo se agrava, os danos também. Ele sai, volta por onde entrou, joga o copo na lixeira destinada ao lixo de vidro. Sobe pelas escadas socando a mão na bolsa à tira colo, ao meio do primeiro lance de escada há outro livro em sua mão, ele cheira a obra como se fosse um tijolo de maconha prensada, segurando com ambas as mãos e colando a peça no nariz que funga ávido. Anda pelo corredor do terceiro andar, senta-se em seu lugar original, cruza as pernas, apoia o cotovelo no joelho e abre o novo livro.

Lá embaixo, pessoas/pombos andam com as mãos cruzadas às costas em volta de inúmeros títulos, várias obras que pousaram ali, vindas do céu, os pombos humanos se curvam pra ver melhor o milho, novamente um livro cai do céu e o homem já vem descendo pelo segundo andar em busca de mais café, de preferência fervente.

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Mudanças.

Haroldo César

E todo dia ele acordava, em seu apartamento sozinho, se olhava no espelho, via sua olheira aumentando cada vez mais, essa era sua vida… Todo dia a mesma coisa. Acordar cedo para ir trabalhar, manter uma vida simples e honesta. Todo dia uma conta diferente a pagar, ele abre o maço de cigarros. Esta vazio, assim como a caixa d’água do condomínio… No interfone, o porteiro respondeu mal e grosseiramente, você não leu o memorando? A rua esta com manutenção no sistema de água  Ele olhou o maço de correspondências que estava em sua caixa postal no dia anterior, 10 cartas que ele nem olhou o assunto, afinal, hoje, carta ou é cobrança ou é mala direta. Quando revirou as cartas encontrou o tal memorando, e ficou sabendo que a água só voltaria às 18 horas. Tarde demais para o banho para o trabalho, ou para a faculdade… Então a opção que restava era trabalhar sem banho. E assim começou mais um dia. Se arrumou e entrou no carro, saiu de casa seu carro popular, afinal, solteiro, morando sozinho, no Brasil, não da pra ter um carro bacana mantendo uma vida honesta.

Indo para o trabalho viu uma pichação num muro escrito “todo dia é igual, por que você faz a mesma coisa? Procure a novidade.” Escrito numa letra bonita, ele parou o carro no meio fio. Ficou olhando para aquela pichação e pensando em sua vida. Realmente todo dia o mesmo.

Ele fez um calculo rápido, tinha andado 500 metros de sua casa em 10 minutos, a ida até o trabalho leva 10 Quilômetros. Então ele resolveu mudar, deu a volta com o carro, adentrou na sua garagem, trocou suas roupas, colocou um short um tênis e uma camiseta, sua roupa social ele colocou numa mochila junto ao ferro de passar, e fez a diferença. Caminhou até o trabalho, passou sua roupa no vapor no trabalho mesmo, saiu de sua mesa mais vezes e conheceu efetivamente o pessoal que ele convive há 10 anos mas não sabe de nada além do nome, bateu papo, riu, viu fotos de filhos filhas e namorados, se divertiu, xingou a impressora, maldita que volta e meia penetra nos seus piores pesadelos, essa impressora é o motivo dele ir em psicólogo de quarta feira.

Ele descobriu uma forma de mudar sua rotina, ele descobriu uma nova forma de viver, mas dois meses depois no caminho que ele estava fazendo a pé até o trabalho, a mesma letra havia pichado “até quando essa sua vida de aventura, será de fato uma aventura e não uma nova rotina?”.

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Sonho.

Fernando Henrique - @virgulapeniana

Eu vi você nitidamente abrindo minhas calças e puxando-as pra baixo, vi você beijar minhas cuecas sobre a área que cobre meu caralho, então, vi você puxá-la pra baixo para junto das calças, você passou a língua sobre minhas coxas nuas, você lambeu de uma só vez, de uma só passada, desde sobre o joelho até a virilha, então encheu a boca com meu saco, ah… Você… Desperto, você tem o rosto de uma labradora e baba sobre meu pau.

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