A cultura pelada e mal cozida – que rola nas entrelinhas, mas muito bem delineadas, tanto na hora do cafezinho em um escritório como em botecos sujos do interior – reconhece, sob a luz da razão, que temos um sensor preciso e quase sempre infalível, que nos avisa quando alguma coisa vai dar merda.
Sou impelida a reconhecer que tal intuição apurada acaba por falhar algumas vezes. Nunca aponte algum cagão na rua, pelas suas calças sujas. Em certas ocasiões a merda vem em um impulso rápido e inegociável. Algumas merdas muitas vezes acontecem por si.
Por outro lado, devíamos ouvir muito mais ao nosso alarme da merda, que no universo metafórico – que configura o meu objeto de análise nestas linhas – não é, definitivamente, o cu. Não!
Encerramos em nós, uma imaginação sonora que diz: “Não! Não faça isso, porque vai dar merda!”
Mas que típico ser humano não gosta de ver uma merda acontecer? Não deve ser burrice, não pode ser inocência. É gosto mesmo.
Ouso dizer que essa nossa atenção especial ao fazer errado, só pra ver o circo pegar fogo, deve ser um resquício de nossa selvageria primitiva. Nossas cagadas metafóricas são a versão moderna das brincadeiras dos homens das cavernas, que se divertiam jogando merdas uns nos outros. Embora eu acredite que pastos de cidades pequenas ainda presenciem fatos semelhantes.
De qualquer forma, não há de se discutir que quase sempre saibamos que alguma coisa vai dar em merda. Deve ser porque tenhamos um anseio secreto e incoerente de depois ouvir “eu te avisei”, não do cu, mas do nosso telencéfalo altamente desenvolvido e descobrir que tínhamos razão.




