Era de se esperar que ela se acostumasse com esse sentimento tão demasiado antigo. Mas para sua surpresa, ainda achava estranho sentir tanta falta dele mesmo que ele não sentisse a sua e tornava a se sentar sobre o parapeito da janela e a afundar-se em lembranças que cada vez mais se tornavam um sonho do qual ela jamais vivera. Ele por sua vez, iria se odiar para o resto de sua vida por ter quebrado o coração daquela inocente e jovem garota que um dia lhe jurara que jamais iria fazê-lo. Tornando sempre a pensar (entre um cigarro e outro) que fizera isso para protegê-la e não por deixar de amá-la. Percebendo finalmente que estava atrasado para seu encontro noturno, levantou, pegou um ou dois maços de cigarros e saiu noite a fora.
Ela, que pela primeira vez em horas, notou que seu gato estava ronronando em seu colo, deixou um sorriso se formar em seus lábios e tornou a enxugar lagrimas que começavam a se formar. Por fim, resolveu afastar aquelas lembranças na esperança de que um dia, elas deixassem de existir. Então soltou uma risada, esse pensamento, por mais estúpido que fosse pareceu lhe dar forças para então, continuar a existir.
No caminho para seu encontro, ele se lembrou dela ali, sentada no banco do passageiro, ao seu lado, sorrindo como se não houvesse tristeza no mundo que pudesse tirar aquele doce sorriso. Com esse pensamento ainda em mente, pensou que se talvez olhasse para o lado, ela estaria ali com ele, sorrindo do jeito que sempre sorria. Para seu desapontamento, o que se encontrava ali ao seu lado, era o eterno vazio.
Ainda pensando nela e como sentia sua falta, percebeu que ao terminar com ela, (uma coisa que nunca começou por ser muito orgulhoso) ele próprio quebrara a promessa de nunca quebrar o seu coração, e foi com esse pensamento que desceu do carro para o seu encontro. Como era de praxe, ele jogou todo seu charme para a jovem (ou não tão jovem assim, convenhamos) sentada a sua frente, disse uma sacanagem aqui e outra ali, usou e abusou de toda a sua sutiliza para fazer com que ela se sentisse atraída por ele e finalmente conseguiu levá-la pra um motel, nem tão barato nem tão caro, apenas o essencial para uma boa noite de sexo.
De certo modo ela estava esperando que isso fosse acontecer só que nunca pensou que fosse de fato acontecer, é como um filme que se repete várias e várias vezes dentro da sua cabeça. Tentando encontrar onde foi que errou o que foi que disse e o que foi que deixou de falar. Ficou pensando que talvez fosse algo que tivesse feito algo que deixou de fazer, a verdade foi que ela nunca descobriu como foi que aconteceu. Decidiu que o melhor era sair. Mas para onde ir, quando tudo a lembrava dele? Quando se deu conta, estava dentro do metrô, esperando deixar de ser aquilo que era. Não queria mais aquela dor pra ela. Ela queria que alguém sentisse aquela dor que a queimava e ao mesmo tempo era fria. Ela queria alguém que tomasse a dor dela.
Ele se levantou, ela perguntou aonde ia. Não respondeu se fingiu de surdo, mas continuou a fitá-la, queria encontrar algo nela que o fizesse esquecer aquela que assombra seus sonhos e contagia seu dia. Mas não conseguiu, ela não tinha nada de mais, dois olhos, um nariz, uma boca. Igual as outras, igual a ela.
“Será que ela ainda pensa em mim quando se deita? “
“ Será que ele ainda lembra-se do meu cheiro quando está com ela? ”
E com esses pensamentos, os dois seguiam em frente, com medo de esquecer aquilo que ainda procuram, com medo de encontrar aquilo que temem.



