Dizei-me por que, detestando a vida, eu receio a morte? Nada me indica que tudo não se acabará comigo; ao contrário, me dou conta do desmoronamento de meu espírito, bem como do de meu corpo. Tudo o que se diz pró ou contra não me causa impressão alguma. Só escuto a mim mesma, e só encontro dúvida e escuridão. Crer, dizem, é o mais seguro; mas como crer no que não se compreende? O que não se compreende pode existir, sem dúvida; também não o nego; sou como um surdo e cego de nascença; há sons, cores, isso ele admite, mas sabe ele o que é que está admitindo? Se basta não negar, ainda bem; mas isso não basta. Como se pode decidir entre um começo e uma eternidade, entre o cheio e o vazio? Nenhum dos meus sentidos me pode ensiná-lo; que se pode aprender sem eles?
Entretanto, se não creio no que é preciso crer, sou ameaçada de ser mil vezes mais infeliz depois de minha morte do que o sou durante a minha vida. A que se determinar, se é possível se determinar? Peço-vos, a vós que tendes um caráter tão verdadeiro, assumir o compromisso de, por simpatia, encontrar a verdade, se ela é encontrável. É das coisas do outro mundo que é preciso me informar, e me dizer se estamos destinados a desempenhar nele um papel.
A mim me cabe falar-vos deste mundo de cá. Em primeiro lugar digo-vos que ele é detestável, abominável, etcétera. Há pessoas virtuosas, ao menos que podem parecê-lo, enquanto não atacamos sua paixão dominante, que é de ordinário, naquelas pessoas, o amor da glória e da reputação. Embriagadas com elogios, muitas vezes parecem modestas; mas os cuidados que tomam para consegui-los denunciam o motivo e deixam entrever a vaidade e o orgulho. Eis o retrato da maioria das pessoas de bem. Nas outras são o interesse, a inveja, o ciúme, a maldade, a perfídia. Não há uma só pessoa a quem se possa confiar as aflições sem lhe proporcionar uma alegria maligna e sem se aviltar a seus olhos.
Falar de prazeres e êxitos? Isso faz nascer o ódio. Praticais o bem? O reconhecimento pesa, e encontram-se razões para se eximir dele. Cometeis algumas faltas? Elas jamais se apagam; nada pode repará-las. Vedes pessoas inteligentes? Só estão ocupadas com elas mesmas; desejam ofuscar-vos e não se darão ao trabalho de vos instruir. Tendes negócio com espíritos mesquinhos? Eles estão atrapalhados com o próprio papel, manifestarão descontentamento com sua esterilidade e sua pouca inteligência. Na falta de espírito encontram-se sentimentos? Alguns, nem sinceros, nem constantes. A amizade é uma quimera; só reconhecem o amor; e que amor! Mas basta, não quero levar mais longe minhas reflexões: elas são o produto da insônia; reconheço que um sonho seria preferível.
Madame Du Deffand