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A tão presente angústia.

Domingo. Dia chato. Mas todos os outros também o são. E qual é o problema do domingo? Por que ele parece ser tão mais torturante que os outros? De repente você começa a refletir, pensar na sua tão dramática vida que parece não ter sentido algum quando pensa dessa forma. Talvez não tenha mesmo. Pare pra pensar: por que a vida parece ser tão vazia a ponto de ser resolvida numa simples ideia de um domingo qualquer?

As pessoas parecem adorar esse dia. Dizem que é um dia de descanso. Descanso do quê? Das mazelas que são seus trabalhos, estudos, relacionamentos? E o descanso mental, quando terão? Quando é que irão esquecer tudo, sumir, não ter contato com ninguém? Preferem juntar família e amigos e fazer aquela reunião para “relaxar”. Nunca entenderão que o que os cansam são as pessoas. Seu enfado psicológico se deve aos relacionamentos e às obrigações do dia-a-dia. O encontro dominical também é uma obrigação.

Tentam se divertir de várias maneiras: vão à praia, ao shopping, vão ao cinema. Nada adianta. Ao voltar pra casa, o domingo ainda estará lá: facínora, sanguinário, violento. E a noite do domingo, amigos, essa é a maior de todas as torturas. Você está lá, frente a frente com suas lembranças. Lembra do que fez e deixou de fazer, do que fará e o que deveria fazer. Do que queriam que fizesse e não fez por pirraça e de como isso causou sofrimento. A consciência pesa. O tempo não passa. Você está deitado na cama, encarando a escuridão do quarto, e acumulando o perverso sentimento de culpa.

Você tenta dormir. Até o sono tem medo da angústia que paira sob seu corpo. Ela o afasta. A angústia é sempre mais forte e não há nada que você faça para impedi-la de torturar-te. Ela é como uma droga e você, um viciado: sempre que o efeito está acabando, você anseia por mais. Ela resolve te dar um descanso. Sente pena da sua mente destruída por suas ações. O sono chega e toma conta do seu corpo.

Durma. Amanhã é segunda. Até o próximo domingo.

Lennon

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Nota de repúdio ao tempo (seu único aliado).

Ele sentia uma ponta de felicidade, finalmente. Mais um ano acabando, mais um ano de angústias indo embora. Por que enganar a si mesmo? Sabia que o sofrimento continuaria no ano seguinte. Nessa época, entretanto, outro sentimento lhe era bastante comum: a irritação. Teria que lidar com aquela gente que evitava durante o ano inteiro e agora parecia brotar. Era um bombardeio de desejos: “feliz ano novo!”, “felicidades!”, “tudo de bom!”. Tudo era falso. E não entendia como conseguiam dormir em paz.

Desejavam coisas boas. Praguejavam, no íntimo. Ninguém queria saber como estava, o que sentia, o que achava de tudo, se estaria vivo no ano seguinte. Também não importava. Via nos olhos de cada pessoa a mentira contida em cada clichê que vomitavam. Desgaste físico, mental. Tinha preguiça, estava entorpecido com tudo. Desesperava-se ao perceber que alguém vinha lhe causar alguns minutos de tormenta.

A noite de natal com a família estava no pacote das maiores torturas da vida. Aliás, morrerá sem saber o porquê de ter uma. A função ele já conhecia: torturar, envergonhar, desgastar, incomodar. Sentia nojo daquele tio que chegara bêbado em casa vomitando, chamando atenção. Ficava nauseado com a tia que aturava aquilo e dos familiares restantes que fingiam achar engraçado e entender aquele homem. Perguntava-se por que não havia saído. Talvez passar a noite sozinho, sob o céu estrelado ou no canto de um boteco qualquer, fosse bem melhor. De fato, seria.

Chegou ao último dia do ano com uma angústia terrível: não sabia se ficava feliz por estar cada vez mais próximo do fim ou se ficava triste por saber que cada dia passaria como se fosse um século. Novamente encontrava-se perante a hipocrisia daquela gente. “Feliz ano novo!” – Senhor, por que tamanha tortura? A única felicidade que via era o fim.  Tudo o que queria era ficar ali, quieto, no seu quarto, esperando o tempo passar, ouvindo a estupidez humana gritando através de fogos de artifício. Não sabia o que desejar aos outros e nem a si. Queria que os outros tivessem estômago para aguentar as bizarrices que a vida lhes guardava. A ele, não importava. Não viveria a mesma desgraça mais uma vez.

Lennon

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Obrigação de viver.

A vida não faz o menor sentido. Ele sabia disso. E isso o massacrava. A obrigação de viver o transtornava, sabia que tinha que fazer algo, mas não sabia como, queria encontrar o caminho certo, a forma correta de ocupar o tempo que levaria sua desgraçada existência. Tinha aquela sensação de que todos conheciam essa fórmula, mas não queriam dividir com ele, só com ele. Parecia que todos colaboravam para que desse fim à angústia diária, à tormenta que era viver. Olhava para frente e tentava encontrar uma luz, mesmo que fosse por uma fresta, por menor que fosse, mas queria encontrar um motivo. Não conseguia.

Sua vida não fazia sentido. Era a sensação que o mundo lhe causara. Seus familiares tinham carreiras brilhantes, vidas amorosas intactas, seus vizinhos eram pessoas maravilhosas. Deus, onde é que havia gente como ele? Não era possível que ninguém mais compartilhasse o mesmo sentimento de fracasso, de derrota, não era possível que ninguém mais fosse infeliz. Não podia ser. “A vida é só isso!”, exclamava enojado. Não entendia como alguém conseguia ser feliz daquela forma: fingindo gostar das pessoas, fingindo gostar do trabalho, dos estudos, fingindo. A vida era um teatro, um enorme faz-de-conta. E a peça era um fracasso.

Iludiu-se inúmeras vezes. Achou que havia conseguido tudo o que mais queria. Enganou-se. Ele mesmo não sabia o que queria – outro engano, pois ele sabia o que realmente queria. O que queria era acabar com esse sofrimento, essa farsa que era sua vida, mas como fazer isso sem machucar a todos que diziam gostar dele? – coisa que também lhe era difícil de engolir. Isolamento, indiferença. Realmente importava o que os outros diziam sentir? Importava o que os outros lhe diziam? A resposta era clara. Talvez, juntamente com o fato de que a morte o encontraria em algum momento, essa fosse a única certeza em sua trajetória. Como já havia sido tomado pela primeira certeza, era a vez da segunda.

Puxou o gatilho. A morte, de repente, também não fazia o menor sentido.

Lennon

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