
“Deuses Americanos” é o livro do mês e também um dos livros que mais me marcou. Ganhei o livro de presente e comecei a ler sem esperar muita coisa – mesmo sabendo que era do Neil Gaiman, autor de Sandman, e isso dispensa qualquer apresentação que eu possa fazer sobre esse escritor. Sandman foi uma graphic novel publicada nos anos 80 que alavancou a carreira de Gaiman e acabou se tornando seu estigma. Depois do fim da série, o autor resolveu se aventurar no mundo fora dos quadrinhos, sem perder a criatividade para a fantasia, agora acrescentando um pouco mais de realismo e humanidade em seus personagens.
Shadow, o protagonista do livro, é o retrato disso. Ele já apareceu em outro livro do Gaiman, “Coisas Frágeis“, em um conto chamado “O Monarca do Vale“, que acabou sendo uma prévia de Deuses Americanos. Shadow é descrito como um homem forte e bruto, mas que possui uma grande sensibilidade. Ex-presidiário, ele descobre que sua mulher morreu em um acidente e se vê completamente desnorteado, recém-solto e sem ter a menor ideia do que fazer com sua vida dali em diante. É a partir daí que ele é surrado por uma sucessões de acontecimentos inusitados, situações estranhas, incríveis e bizarras, descobertas de coisas que ele nunca imaginou que poderiam existir em seu mundo – coisas que sempre estiveram ali, ocultas sob um cotidiano insuspeitável.

Tudo começa com um encontro com o senhor Wednesday, um velho estranho e enigmático com preferências duvidosas, que oferece a Shadow uma proposta de emprego. Ele, perdido, acaba aceitando, sem ter a menor ideia da merda em que estava se metendo. E nesses pequenos “serviços” ele se depara com monstros, seres folclóricos, animais falantes, deuses mitológicos – tanto os deuses “clássicos” da mitologia nórdica e egípcia, quanto os deuses da atualidade, da mídia, da internet, dos cartões de crédito; fantasmas (incluindo a sua própria e falecida esposa), vampiros e toda sorte de criatura bizarra que ele nunca pensou que pudessem ser reais. E isso tudo acontece em uma viagem alucinógena, que transita – e muitas vezes se confunde – entre o inconsciente de Shadow e a sua realidade, passando por regressões e avanços no tempo e mostrando que o passado nunca morre. Tanto que, no final, tudo o que imaginávamos que era de um jeito acaba terminando de uma forma completamente diferente, porque previsibilidade não é bem o forte de Neil Gaiman.
Toda essa aventura marota não é apenas um relato ficcional possivelmente resultante de uma bad trip de LSD ou algo do tipo. O autor desconstrói, com certo humor e uma leve ironia carregada da sutileza inglesa, a consciência coletiva que aboliu os mitos de suas representações, colocando em cheque a sociedade americana, cuja ostentação se sustenta em um passado histórico de tradições e mitos esquecidos (é por isso que se chama Deuses Americanos, dãr). É uma leitura emocionante, apesar de longa, muito longa. Eu me apaixonei tanto pelo livro que fiquei adiando o final, só por “pena” de ler e acabar ali, sabendo que não haverá uma continuação.
Antes de terminar, queria deixar um dos meus trechos favoritos do livro:
“Eu quero descansar agora”, disse Shadow. “É isso que eu quero. Eu não quero nada. Nem céu, nem inferno, nem nada. Só deixe isso tudo acabar.“Você tem certeza?”, perguntou Toth.
“Sim”, disse Shadow.
Sr. Jacquel abriu a última porta para Shadow, e por trás desta porta não havia nada. Nem escuridão, nem mesmo o esquecimento. Apenas nada. Shadow aceitou isso, completamente sem reservas, e passou pela porta para o nada com uma estranha alegria feroz.”
Mas dizem por aí que haverá uma adaptação de Deuses Americanos em forma de seriado, pela HBO. Só esperando para ver.
QUER COMPRAR?
(CORRE! TÁ EM PROMOÇÃO!)
Por Fernanda Blos - @vdkwrth






