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Considerações sobre a merda.

A cultura pelada e mal cozida – que rola nas entrelinhas, mas muito bem delineadas, tanto na hora do cafezinho em um escritório como em botecos sujos do interior – reconhece, sob a luz da razão, que temos um sensor preciso e quase sempre infalível, que nos avisa quando alguma coisa vai dar merda.

Sou impelida a reconhecer que tal intuição apurada acaba por falhar algumas vezes. Nunca aponte algum cagão na rua, pelas suas calças sujas. Em certas ocasiões a merda vem em um impulso rápido e inegociável. Algumas merdas muitas vezes acontecem por si.

Por outro lado, devíamos ouvir muito mais ao nosso alarme da merda, que no universo metafórico – que configura o meu objeto de análise nestas linhas – não é, definitivamente, o cu. Não!

Encerramos em nós, uma imaginação sonora que diz: “Não! Não faça isso, porque vai dar merda!”

Mas que típico ser humano não gosta de ver uma merda acontecer? Não deve ser burrice, não pode ser inocência. É gosto mesmo.

Ouso dizer que essa nossa atenção especial ao fazer errado, só pra ver o circo pegar fogo, deve ser um resquício de nossa selvageria primitiva. Nossas cagadas metafóricas são a versão moderna das brincadeiras dos homens das cavernas, que se divertiam jogando merdas uns nos outros. Embora eu acredite que pastos de cidades pequenas ainda presenciem fatos semelhantes.

De qualquer forma, não há de se discutir que quase sempre saibamos que alguma coisa vai dar em merda. Deve ser porque tenhamos um anseio secreto e incoerente de depois ouvir “eu te avisei”, não do cu, mas do nosso telencéfalo altamente desenvolvido e descobrir que tínhamos razão.

Silvia Schroeder

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French Fries alla Schopenhauer.

“A vida é um pêndulo que oscila entre o tédio e o sofrimento. A felicidade é apenas uma cessação de ambos!”
Artur Schopenhauer

- Bem, se a vida tem sentido? Como eu vou saber? Mas que tipo de pergunta é essa?

A loira, prostrada à sua frente de maneira inquisitiva continuou encarando-o, enquanto ele buscava em seus bolsos o maço de cigarros de filtro vermelho e o isqueiro zippo. Fumava-se dentro de bares naquela época.

- É o tipo de pergunta fundamental a um ser humano – explicou – não o interessa descobrir se há um motivo específico para nossa existência ou se a nossa consciência é apenas uma realidade virtual, um software projetado para perpetuar a existência de genes egoístas em seus robôs orgânicos?

Ele, sinceramente, perdeu completamente a noção de quanto tempo ele ficou olhando para seus olhos azuis, tentando encontrar uma razão, motivo ou circunstância que levariam um sujeito a se fazer tal tipo de questionamento. Ainda mais sendo alguém com um rabo tão delicioso.

- Mais um gim com Tonica? – O que foi uma pergunta retórica, já que antes de terminar sua sentença as bebidas já estavam se embaralhando dentro do copo pelo garçom. Gück era conhecido por ali.

Dolores era uma bela mulher, como Gück vinha reparando, apesar de todo aquele falatório. Olhos azuis profundos, cabelos curtos cor de ouro e um belíssimo rabo.

- Eu acho que é uma pergunta, Dolores, que nunca será respondida.

Gück olhou pro lado com certo assombro, de tão silenciosa, ele havia se esquecido de sua presença. Ärger, amiga de Dolores era mais delicada, com trejeitos mais femininos. Era linda, mas seus cabelos castanhos e escorridos caiam previsivelmente, lhe dando uma aparência aborrecida.

- Olha só, com sentido ou sem sentido, o fato é que da vida, não sairemos vivos. Portanto, tenho outros interesses, interesses mais práticos e atraentes.

As duas moças ficaram aguardando a resposta de Gück inquietas.

- A cultura francesa, por exemplo, muito me interessa! Eles têm lá suas frescuras exageradas, mas fazem algumas coisas maravilhosas, como o croissant e a batata frita. O French Kiss é lindo e a putaria lá é sofisticada. O que nós vamos fazer a seguir, também é muito mais bonito se usarmos o linguajar francês.

Todos ficaram em silencio. Ela, ele, ela, sabiam o que queria dizer.

Ménage à trois ecoava ao som da MPB. E foi o que aconteceu. Um indisciplinado e formidável ménage à trois, em um hotel, na praia da cidade vizinha.

Pelo menos é o que Gück prefere, sempre feliz, acreditar. Já que a única coisa que se lembra é acordar com a terrível sensação de não saber onde se está, abusado, assaltado e sem loira nem morena pra contar história.

É, a vida é assim mesmo.

Silvia Schroeder

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