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Construção. (@l0botomia)

Era de se esperar que ela se acostumasse com esse sentimento tão demasiado antigo. Mas para sua surpresa, ainda achava estranho sentir tanta falta dele mesmo que ele não sentisse a sua e tornava a se sentar sobre o parapeito da janela e a afundar-se em lembranças que cada vez mais se tornavam um sonho do qual ela jamais vivera. Ele por sua vez, iria se odiar para o resto de sua vida por ter quebrado o coração daquela inocente e jovem garota que um dia lhe jurara que jamais iria fazê-lo. Tornando sempre a pensar (entre um cigarro e outro) que fizera isso para protegê-la e não por deixar de amá-la. Percebendo finalmente que estava atrasado para seu encontro noturno, levantou, pegou um ou dois maços de cigarros e saiu noite a fora.

Ela, que pela primeira vez em horas, notou que seu gato estava ronronando em seu colo, deixou um sorriso se formar em seus lábios e tornou a enxugar lagrimas que começavam a se formar. Por fim, resolveu afastar aquelas lembranças na esperança de que um dia, elas deixassem de existir. Então soltou uma risada, esse pensamento, por mais estúpido que fosse pareceu lhe dar forças para então, continuar a existir.

No caminho para seu encontro, ele se lembrou dela ali, sentada no banco do passageiro, ao seu lado, sorrindo como se não houvesse tristeza no mundo que pudesse tirar aquele doce sorriso. Com esse pensamento ainda em mente, pensou que se talvez olhasse para o lado, ela estaria ali com ele, sorrindo do jeito que sempre sorria. Para seu desapontamento, o que se encontrava ali ao seu lado, era o eterno vazio.

Ainda pensando nela e como sentia sua falta, percebeu que ao terminar com ela, (uma coisa que nunca começou por ser muito orgulhoso) ele próprio quebrara a promessa de nunca quebrar o seu coração, e foi com esse pensamento que desceu do carro para o seu encontro. Como era de praxe, ele jogou todo seu charme para a jovem (ou não tão jovem assim, convenhamos) sentada a sua frente, disse uma sacanagem aqui e outra ali, usou e abusou de toda a sua sutiliza para fazer com que ela se sentisse atraída por ele e finalmente conseguiu levá-la pra um motel, nem tão barato nem tão caro, apenas o essencial para uma boa noite de sexo.

De certo modo ela estava esperando que isso fosse acontecer só que nunca pensou que fosse de fato acontecer, é como um filme que se repete várias e várias vezes dentro da sua cabeça. Tentando encontrar onde foi que errou o que foi que disse e o que foi que deixou de falar. Ficou pensando que talvez fosse algo que tivesse feito algo que deixou de fazer, a verdade foi que ela nunca descobriu como foi que aconteceu. Decidiu que o melhor era sair.  Mas para onde ir, quando tudo a lembrava dele? Quando se deu conta, estava dentro do metrô, esperando deixar de ser aquilo que era. Não queria mais aquela dor pra ela. Ela queria que alguém sentisse aquela dor que a queimava e ao mesmo tempo era fria. Ela queria alguém que tomasse a dor dela.

Ele se levantou, ela perguntou aonde ia. Não respondeu se fingiu de surdo, mas continuou a fitá-la, queria encontrar algo nela que o fizesse esquecer aquela que assombra seus sonhos e contagia seu dia. Mas não conseguiu, ela não tinha nada de mais, dois olhos, um nariz, uma boca. Igual as outras, igual a ela.

            “Será que ela ainda pensa em mim quando se deita? “
“ Será que ele ainda lembra-se do meu cheiro quando está com ela? ”

E com esses pensamentos, os dois seguiam em frente, com medo de esquecer aquilo que ainda procuram, com medo de encontrar aquilo que temem.

Sofia

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As Cinzas

Ele detestava o sol. Para ele aquilo não tinha serventia alguma. Trazia apenas calor e queimaduras a sua pele. Além do clarão que lhe dava dor nos olhos; uma dor parecida com a que lhe causavam as cores das flores nos jardins onde ele passava caminhando. Preferia a chuva. Menos quando ela batia na sua janela. E também não gostava quando pingos caiam na sua cabeça, nem quando formava poças de água que o faziam molhar os pés. Pensando bem, ele também não gostava da chuva. Na verdade preferia o tempo nublado. Sem sol, sem chuva. Apenas aquele tom cinza que preenchia de melancolia todo o mundo. Ele gostava disso. Bem, pelo menos até agora.

Aquela era uma manhã cinza, exatamente daquelas que o agradavam. Havia poucas pessoas na rua. Ele não gostava muito de pessoas. Preferia ficar em casa longe delas, mas seu médico o aconselhara a caminhar todos os dias. A idade já lhe alcançara. Sete décadas é tempo suficiente para você enjoar e cansar de tudo. No principio pensou em caminhar durante a madrugada, mas depois que o vizinho passou a querer acompanhá-lo no mesmo horário ele desistiu e resolveu caminhar exatamente na hora em que o vizinho estava no trabalho. Como não tinha escolha a não ser caminhar onde pessoas também caminhavam, ele, ao ver alguns jovens usando fones de ouvido enquanto iam para a escola, teve a mesma ideia e comprou os seus junto com um mp4 usado para ouvir a música que ele mais amava: a erudita. Na verdade ouvir música não era a única razão para ele usar os fones. Eles também serviam para não dar atenção para as pessoas na rua falando de suas vidas medíocres. Fazia sempre uma expressão de alienação para que as pessoas não o parassem para pedir informações. Noventa por cento das vezes dava certo.

O vento também o incomodava. Por isso se agasalhava bastante. Levava consigo sempre uma bolsa no caso de suar e tirar a blusa. Desistira de usar o chapéu panamá, pois uma ventania sempre o levava. Usava óculos escuros para impedir que poeira entrasse nos olhos e para não ser olhado nos olhos pelas pessoas. Era costume sair de casa todo agasalhado e voltar quase nu.

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A confusão que a madrugada traz.

Talvez, talvez eu peça demais do mundo. Eu só queria que o mundo me entendesse. Mas ele segue sem a menor intenção. E eu fico aqui a tentar me explicar, como uma adolescente precisa aos seus 15 anos. Eu tenho essa, talvez, necessidade de explicar que não é antipatia não falar com você. E sim uma, talvez, timidez. Uma, talvez, falta de álcool. Ou uma, talvez, falta de vontade. É só isso.

E essa vontade de nunca mais dormir mesmo sabendo que é o sono que traz o esquecimento. Esse que pode muito bem trazer o esquecimento dessas letras incompreensíveis.

Quero o sem julgamento. Quero o apenas “entendi”. Ou não precisa nem entender. Ou precisa entender. E eu sempre entro na minha contradição. Como um vício.

O mundo pode acabar amanhã. Tudo bem. Eu tenho vinho e alguns salgadinhos, posso sobreviver até lá. O sono já acompanha os sem mais a dizer. Os sem vontade de escutar. Mas eu fico aqui a incomodar você que resolveu ler.

Meia garrafa de vinho e uma cama é isso que tenho. A música continua a embalar o seu sono, e a minha vontade de se juntar a você, cadê? Foi embora? Com o quê? O que meu vai embora com a lucidez? A falta de vontade de muitas obrigações. A falta de vontade de viver a realidade.

Querendo ou não, você está só. Estando acompanhado ou não a solidão persegue. Amanhã nada disso mais vai fazer sentido. Nem pra mim, nem pra você. Mas tudo bem está tudo registrado aqui neste papel. E à caneta. Como se nem o esquecimento fosse capaz de apagar. Mas basta apenas um copo de água.

 Tudo bem? Tudo. E já dizia a menina no filme: “E se não estiver. Ficará.”

 Talvez, o doce que eu preciso para disfarçar esse amargor na boca seja apenas um pequeno bis.

Karoll

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A profissão.

Acordou naquela manhã fria, que não parecia ter nada de diferente. Olhou para o teto branco, mas não fez menção de levantar. A cama já parecia ter o formato do seu corpo. Era mais um dia comum, rotineiro, chato. E isso começou a fomentar seus pensamentos mais dissolutos:

- E se eu tivesse feito diferente?

Era um homem de meia idade, formado em direito, com uma carreira relativamente bem sucedida e que entendia tudo de sexo. Não só do aspecto científico da coisa, mas das formas mais sujas e divertidas.

- E seu eu jogasse tudo para o alto e tentasse a carreira de ator de filmes pornôs?

Sempre leu, assistiu, praticou, consumiu e fuçou sobre sexo. Conhecia todos os tipos de termos do ramo erótico: Felching, Fisting, Brachio Procticus, Ménage à trois, Bukkake, Meia nove, Gang bang e o que mais fosse possível saber. Por ser um cara lúcido, misterioso e bem articulado, usava muito bem o seu dom de oratória para conseguir fêmeas desnudas e ávidas por prazer carnal. Entendia tanto de vaginas que, vivia discutindo com um amigo ginecologista sobre a sensibilidade dos pequenos lábios.

Que seja. Aquela ideia parecia cada vez mais forte. Poderia ser um ator pornô, desses que inovam, que criam, que surpreendem e que fazem as atrizes gostarem de atuar junto com ele. Quanto isso deveria render? Será que valeria a pena jogar tudo para o alto? E a advocacia? E os anos dedicados aos estudos e especializações? E a família, o que pensaria? Ah, eram tantas perguntas… Aquilo parecia extremamente insensato.

Enquanto pensava no quanto tinha se arrependido de algumas escolhas, tomou uma decisão: “Definitivamente. Serei ator de filmes pornôs!” – Estava resolvido. Ia procurar uma produtora e tentar entrar no elenco de algum filme. O primeiro que aparecesse, e de preferência, essas menores, que devem ser menos burocráticas. Era isso. Caso encerrado; Agora era só esperar que os médicos o liberassem do hospital e que aquela AIDS não o deixasse ainda mais raquítico do que já estava.

Nihil

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Elogio da Dialética – Bertold Brecht (via @JCaroliiine)

A injustiça avança hoje a passo firme
Os tiranos fazem planos para dez mil anos
O poder apregoa: as coisas continuarão a ser como são
Nenhuma voz além da dos que mandam
E em todos os mercados proclama a exploração;
isto é apenas o meu começo

Mas entre os oprimidos muitos há que agora dizem
Aquilo que nós queremos nunca mais o alcançaremos

Quem ainda está vivo não diga: nunca
O que é seguro não é seguro
As coisas não continuarão a ser como são
Depois de falarem os dominantes
Falarão os dominados
Quem pois ousa dizer: nunca
De quem depende que a opressão prossiga? De nós
De quem depende que ela acabe? Também de nós
O que é esmagado que se levante!
O que está perdido, lute!
O que sabe ao que se chegou, que há aì que o retenha
E nunca será: ainda hoje
Porque os vencidos de hoje são os vencedores de amanhã

(Jéssica Caroline - Estudante de História da FFLCH/USP)
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A Corda

Não sei como me foi dado coligir esta confidência: “Sem profissão nem saúde, sem projetos nem recordações, releguei para longe de mim o porvir e o saber, e só possuo uma cama miserável sobre qual devo desaprender o sol e os suspiros. Permaneço estirado nela e conto as horas; em torno de mim, utensílios, objetos que me intimam a perder-me. O prego me sussurra: atravessa-te o coração, as poucas gotas que sairiam não deveriam assustar-te. A faca insinua: minha lâmina é infalível: um segundo de decisão e triunfarás sobre a miséria e a vergonha. A janela abre-se sozinha, rangendo no silêncio: compartilhas com os pobres as alturas da cidade; atira-te, minha abertura é generosa: sobre a calçada, em um abrir e fechar de olhos, te espedaçarás com o sentido ou o sem-sentido da vida. E uma corda se enrosca como sobre um pescoço ideal, assumindo um tom de força suplicante: espero-te desde sempre, assisti teus terrores, teus abatimentos e tuas asperezas, vi tuas cobertas amarrotadas, o travesseiro que tua raiva mordia, como também escutei as blasfêmias com que obsequiavas os deuses. Caridosa, tenho compaixão por ti e ofereço-te meus serviços. Pois nascestes para te enforcar, como todos os que desdenham uma respostas às suas dúvidas ou uma fuga ao seu desespero.”

Cioran

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Da vaidade que atormenta o mundo.

Quem é o homem senão o mais pavão de todos os pavões? Aquele que ergue suas plumas adornadas, aquele que as deixam cada vez mais cintilantes, aquele que faz estardalhaços para que se voltem atenções à sua cauda.

E que não haja distinções! Que todos os olhos derramem suas lágrimas em tamanho esplendor. Que todos os porcos tenham suas vistas seduzidas pelo encantar do pavão. Que até os insetos, os mais asquerosos dentre os insetos, estremeçam de inveja ante o Homem-Pavão! Que os cegos tenham tato, para que possam tatear e vislumbrar também toda a sua beleza. E que o anseio pelo pavão seja a plenitude imbuída em todos os seres, o arrependimento de todas as consciências e o desesperar de toda serenidade, por não serem o tal pavão.

Nunca fui perdoado pelo pavão. Nunca serei. Sempre me odiou e assim será por toda sua existência! Por quê? Porque não invejei suas virtudes, por não amar sua pompa e por não deitar meus olhos séqüitos em sua majestade. É o que fazem todos os ataviados: odiar os que lhes são indiferentes! E apequenados em suas frívolas virtudes hão de perecer, em tentativas e mais tentativas, para que lhe enxerguem também o Poeta.

Mas minhas pálpebras cerram-se sobre minhas íris e ouço o chacoalhar distante de mil plumas insaciadas. Mas meus olhos, diletantes olhos, atrofiam-se diante de mil sóis, lacrimejam diante de mil oceanos, clamam diante de mil vácuos: mas me enfada assentá-los no orgulho miserável de um pavão!

Nihil

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O Verdugo.

Um dia sem nuvens: céu aberto por onde o sol se aproxima. Na praça central, uma multidão se empurra procurando melhores lugares. Há muitos espectadores e apenas dois personagens: meu verdugo e eu. Em minha cela, próxima à praça, faço minha última refeição. A multidão grita, alimentada pela navalha brilhante da guilhotina. Serei o primeiro de muitos a serem executados nesta manhã. Tive que acordar cedo, tomar um café fraco, arrumar meus pertences para serem entregues à minha família. No momento, apenas eu, uma vela, uma folha de papel, uma pena, um tinteiro e minha sombra. Nada mais. Se existissem janelas eu poderia observar as pessoas levantando as mãos em euforia.

Falta pouco. Desde minha condenação fico a esperar o momento próximo. Um calor sufoca-me. Uma falta de ar me é agora a companhia que eu não queria. Visto calças e camisa de tecido vagabundo e uso uma sandália de couro cru para completar as vestes que uso – eu e qualquer condenado neste país. Por falar em condenação, meu crime foi como qualquer outro. Uma ação fora das regras que eu mesmo desconhecia. Mas de qualquer forma fui julgado, xingado, vaiado, condenado. Agora tomo meu lugar.

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